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Um lado da mesa

Na última vez que nos reunimos, me lembro muito bem, estava uma noite estrelada, era possível fechar os olhos e sentir uma brisa suave acariciar o rosto. Caminhávamos lentamente, sem pressa para chegar. Às vezes parávamos e observávamos as pessoas ao redor, sempre tão apressadas, sempre tão ausentes. As pessoas me fascinam, gosto de pensar que elas realizam uma espécie de dança inconsciente. Os passos marcados, os espaços delimitados e quando um dos dançarinos erra a passada alguém sempre acaba se machucando.
As pessoas são contradições em busca da felicidade. Essa busca absurda sempre me faz rir. Na verdade nunca entendi esta lógica: o ser humano sempre diz que quer alcançar a felicidade, mas nem ao menos entende o que isso significa.
Eles ainda precisam entender o real sentido de tudo isto. Mas, nem olhe para mim, eu não sou a melhor escolha para obter esta explicação. E, mesmo que soubesse, não contaria. Não quero que tudo perca a graça.
Um dos meus melhores passatempos é observar o ser humano e suas escolhas. Você não acha fascinante o modo como eles inventam explicações para tudo?
Eu gosto de caminhar pelas ruas, já faço isso há muito tempo e a cada vez descubro algo novo. Raramente as pessoas me cumprimentam, são mais as crianças que fazem questão de me dar um sorriso ou mesmo um aceno. Os adultos estão sempre muito ocupados para me perceber. Eles sabem que eu existo, mas falta tempo para pensar em mim. Eu, pelo contrário, penso sempre neles.
Por vários anos tentei encontrar uma definição para o ser humano, para tanto experimentei livros de várias épocas, alguns que diziam que o ser humano é bom por natureza, outros que afirmavam o contrário… Não pense que encontrar a definição sobre o ser humano seja necessário para a minha existência (se é que eu tenho uma). É só por curiosidade. Como você sabe, sou muito curioso.
Antigamente eu tinha a mania de perguntar para todos que conseguiam me encontrar “o que é ser humano?”, ouvi diversas respostas, vários xingamentos e uma vez um velho cuspiu na minha cara. Até hoje não entendi muito bem o porquê, quando nos reencontrarmos eu pergunto.
Uma vez uma moça me disse que as pessoas são contradições em busca da felicidade. Gostei e passei a usar esta explicação. Por que está me olhando desta maneira? Por acaso tem uma melhor definição? Você está tão calada! Você que sempre tem ótimas histórias para contar. Acho que a minha companhia já não fascina tanto.
Eu sei, você está exausta. Toda vez que você me chama é porque está muito cansada. Sabe o que eu mais gosto em você? Sua sinceridade e as suas perguntas.
Você sabe que eu adoro quando me fazem boas perguntas. Mas as pessoas geralmente não gostam das respostas.
Fazer perguntas é uma arte muito interessante, eu, assim como você, frequentemente a utilizo. Na verdade, nós mais perguntamos do que respondemos, e mesmo assim, as pessoas tem a mania de pensar que temos todas as respostas. É certo que já vivemos muita coisa, mas ver é diferente de entender.
Quando alguém me faz uma pergunta eu até tento encontrar a resposta, não sou insensível, mas toda vez que eu a encontro acontece o mesmo: vou todo eufórico comunicar a descoberta e a pessoa só ouve o que quer, e pior, realiza interpretações equivocadas. Fazer o que? Pelo menos eu tentei. E sabe o que é mais irônico? Depois estas mesmas pessoas me culpam pelas interpretações erradas que fizeram. Sinceramente, desisti de tentar explicar minhas descobertas.
O que me conforta é que ainda há pessoas que entendem as minhas respostas e não me culpam por suas escolhas, apesar do número ser pequeno.
Qual o tipo de pergunta que mais fazem para você? Eu sei que as pessoas gostam muito de perguntar sobre você. Todo dia tem alguém com indagações deste tipo. Na maior parte das vezes as perguntas são simples e diretas, mas estas são as mais difíceis de responder. Sempre me complico.
Por várias vezes, quando eu não sabia a resposta, eu cheguei a pedir que perguntassem a você. Desculpe, não fique brava comigo, era apenas uma maneira de desviar a atenção. Você entende, não entende?
Eu me divirto muito quando as pessoas tentam encontrar explicações. Nesses momentos posso dizer que meu trabalho é pesado, mas divertido. Gosto do que faço, é verdade que às vezes fica monótono ou repetitivo. Já me acostumei.
Tem hora que as situações são desagradáveis, outras comoventes, sei que parece estranho, mas eu ainda me comovo. Você ainda se comove? Posso falar uma coisa com muita franqueza? Sempre achei que você fosse um pouco maldosa. Parecia que você se divertia mesmo naqueles piores momentos. Não ria. É verdade. Achei que você fosse maldosa. Na verdade, ainda acho. Maldosa e incompreendida.

Eu também geralmente me sinto incompreendido. Acho até que no seu caso é pior, não é? Em compensação você se diverte mais. O que foi? Você me acha irônico? Mas eu não faço por maldade. É que eles ainda não perceberam que estamos em toda parte, mesmo que às vezes de modo imperceptível… eu deste lado da mesa e você do outro. Falando em mesa, gostei do seu convite para conversarmos aqui. Então, qual o real motivo deste encontro?

Comentários

  1. Nesta minha busca incessante de fazer um curso superior tem passado pela minha cabeça que isto pode ser um sinal que algo não está bem comigo. Talvez quando eu descobrir que posso viver em paz com que eu já possuo esta busca cessa.

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  2. Dorvalino Santos Reis Neto28 de janeiro de 2012 às 12:53

    Texto intrigante, porem muito bom. Comentário de alguém que conhece tudo, mas não conhece ninguém. Poeta ou escritor solitário percebendo pessoas sem perceber a si mesmo.
    Com tamanha ternura, mas complicada, uma grande pessoa de escritas com prosa e versos
    mil e uma letras sem perceber que tudo faz parte do criador para criatura tudo é coisa divina nós somos todos fruto de sua criação com certeza dias melhores virão, fique na paz.
    Dorvalino Santos Reis.

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