Pular para o conteúdo principal

Acontecimento

Abriu os olhos lentamente e ficou parada, como se precisasse buscar forças para se levantar. Olhou para o lado, ele dormia. Calmo. A respiração profunda. Aproximou o rosto da cabeça dele e respirou fundo, fechou os olhos, aquele cheiro continuava tão bom. Afastou-se. Vagarosamente foi se levantando, numa mistura de resto de sono e tristeza. Sentou-se com as mãos apoiadas no joelho, o corpo um pouco inclinado para frente, a cabeça baixa, observando os pés que tocavam o piso frio.
Levantou a cabeça, olhou a sombra da árvore por trás da cortina. Como ela queria que tudo voltasse a ser como antes, que tudo voltasse ao normal. Passou a mão pelo seio, respirou fundo e se levantou.
O quarto era amplo, havia espaço suficiente para ter o que quisesse. Sentia-se tão pequena no meio daqueles armários, cortinas, tapetes, poltronas, nada mais fazia sentido. Nem mesmo o conjunto de fotos sobre a prateleira. Quem eram aquelas pessoas? Não se reconhecia mais, não reconhecia mais nada.
- Amor, acordada a esta hora? É sábado, volta pra cama!
- Acho que preciso de um banho.
Não precisava de um banho. Sabia que não precisava, mas foi a única coisa que veio à mente naquele momento.
Entrou no banheiro e trancou a porta. Antes não se preocupava com este detalhe, não se importava de tomar banho de porta aberta. Gostava da possibilidade dele entrar no banheiro, às vezes só para conversar, às vezes não.
Agora era diferente. Fez questão de fechar a porta, não apenas do banheiro, fechou todas as portas que a ligavam à vida, ao marido, à família.
Ligou o chuveiro, sentou-se na tampa do vaso sanitário e começou a pensar em tudo que tinha acontecido.
No começo do casamento o marido costumava chama-lá de controladora, só para irritá-la. Ela era controladora e impaciente, queria controlar o tempo da vida e se irritava quando a vida não a obedecia.
Como toda pessoa, tinha vários medos, alguns revelados, outros não, mas nunca deixou que esses medos a impedissem de caminhar. É claro que alguns conseguiram atrasar um pouco o caminho, exigiram mais dispêndio de tempo e energia, além de algumas gotas de suor e lágrimas.
Levou vários tropeços da vida, se machucou, levantou, amadureceu. Correu por várias estradas que não levaram a nada, ou melhor, levaram a desvios que propiciaram novos caminhos.
Se pudesse recomeçar, duvido que faria muita coisa diferente do que já fez. Gostava da vida que levara um dia, apesar de reclamar de várias coisas. Mas esse era seu jeito. Reclamava porque era impaciente ou sonhadora demais, enfim reclamava por vários motivos e, por mais estranho que pareça, reclamava porque era feliz. Hoje em dia parou de reclamar, poucas são as vezes que ao menos fala algo.
Sempre teve um ponto de apoio no marido, aquele jovem que se tornou homem ao seu lado, que compartilhou os momentos mais felizes e os mais tristes de sua vida.
Com ele construiu uma família, com apoio dele construiu uma carreira, junto com ele teve três filhos e, também por causa dele ganhou vários fios de cabelos brancos e algumas rugas. Agora ele estava deitado sozinho na cama, olhando para o teto com uma expressão de preocupação. Ele sabia que depois da cirurgia as coisas mudariam, foi alertado pelos médicos. Precisava ter paciência, precisava entender que as pessoas levam um certo tempo para se acostumar com a mudança. Às vezes tempo demais.
Ela levantou-se e foi em direção ao espelho. Olhou-se e começou a se despir. Retirou os chinelos, deixou cair o pijama, tudo lentamente e sem desviar o olhar de si mesma no espelho. A quanto tempo não se contemplava! Não era mais bonita e jovem, já não tinha aquele frescor nem aquele olhar que faz tudo parecer possível. Mas ainda estava ali, viva.
Acariciou a cicatriz um pouco abaixo do pescoço. Parou a mão sobre ela. Fechou os olhos, respirou fundo. Esperou alguns segundos. Abriu novamente os olhos e começou a desabotoar o sutiã. Tirou-o e continuou olhando-se fixamente.
Aquele corpo pareceu-lhe deformado. Passou novamente a mão na cicatriz, que agora deixava-se ver por inteira. Como isso havia acontecido? Por que ela? Como era possível alguém amar aquele corpo? Como era possível deixar alguém ver aquele corpo? Aquele corpo que nem ela aguentava olhar...
Tentava desesperadamente convencer-se de que estava viva, que precisava reagir. Pensou no marido, na familia, nela mesma e uma mistura de dor, tristeza, culpa, medo, saudade começou a apertar sua garganta, como se quisesse estrangulá-la.
Fechou novamente os olhos, enlaçou os braços pelo próprio corpo e, balançando para frente e para trás desatou a chorar. Ao poucos foi se encolhendo. Sentou-se no chão do banheiro e lá ficou, desejando que a próxima vez que levantasse tudo tivesse voltado ao normal.

Comentários

  1. Ai Thaty, seu texto me levou às lágrimas.
    Que história triste, mas que maneira bonita de contar histórias.

    abraço

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

O vento

O olhar ao longe, como se estivesse a procurar algo inexplicável. As folhas balançavam ao som do vento. Um vento frio e incessante. Não estava só, o silêncio o acompanhava. Um silêncio que só a ele pertencia. As sensações se misturavam. A pele se desfazia, assim como se esvai o sutil tocar de lábios. Amores tenros e momentâneos. O calor de seu corpo esfriava. O som das vozes perdiam-se no vento. Tudo girava. Não era mais possível distinguir o que era real e o que havia sido um sonho. Tremia. Não conseguia saber bem o porquê. Seria pelo vento gelado, ou pelo calor que se esvaia do corpo? Impossível determinar. Tudo, tudo tão longe. Os pensamentos se perdiam nos caminhos da lembrança. Misturavam-se os sonhos, os desejos irrealizados, os medos e anseios que o angustiavam antes de dormir. Um turbilhão formado por tudo que ele foi e por tudo que desejou ser e fracassou. Por muito tempo almejou ter o poder de esquecer. Fugir das lembranças que teimavam em enlaçá-lo e assombrá-lo. Agora isso...

Bem-vindos

Sejam Bem-vindos

Relatos selvagens:autonomia e responsabilidade

Até que ponto você é livre para ser quem você é? Qual o limite entre a sua culpa e a culpa dos outros em suas decisões? Ás vezes, acredito que já tenha ocorrido com você, nos surpreendemos com nossas próprias ações, agimos de certa forma que não nos imaginávamos capaz de agir. Daí indagar: até que ponto conhecemos a nós mesmos? Até que ponto temos o controle sobre nossas ações e reações? Estes são alguns dos temas tratados em “Relatos Selvagens”, filme argentino de 2014, dirigido por Damián Szifron, que conta seis histórias de pessoas que se encontram no limite do que chamamos “sanidade”. O primeiro relato apresentado pelo filme trata do dilema autonomia e responsabilidade. Sartre, filósofo francês do século passado, afirmava que somos condenados a ser livres e, neste contexto, somos totalmente responsáveis por quem nos tornamos. Segundo o filósofo, tomamos diversas decisões ao longo da vida, as quais apresentam sempre mais de um caminho possível, portanto, a escolha do percurso é ...